Lugar Comum

Lugar comum onde se procura que se encontrem experiências, gostos, preocupações que, sendo comum de muitos, possam ser comuns de ainda mais. "Lugar comum" foi o título do último programa do autor numa rádio da rua Tenente Valadim, no Porto, no princípio dos anos 80.

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Sexta-feira (negra)

Nos meus tempos de extrema juventude liam-se e dissecavam-se todos os livros, nem que fossem de Alexandre Herculano ou José Gaspar Simões. Usávamos óculos e calças justas nos tornozelos, os que podiam deixavam crescer barba ou bigode (ou as duas coisas) até que a pressão familiar começava a desbastar a penugem.
Os nossos mestres dividiam-se em dois tipos: os que tinham mais vinte anos do que nós e nós próprios. Quando os mestres eram os mais velhos nós dividíamo-nos em escolas e tendências que se digladiavam de café para café. Quando éramos nós os mestres os mais velhos eram uns pobres senis, ignorantes e pretensiosos e cujo funeral político e intelectual já estava marcado.
Lembrei-me destas dramáticas e conspícuas posições, atitudes e discussões quando lia um pouco conhecido Júlio Verne, “L’école des Robinsons”, que mais não é que um remake do "Robinson Crusoë". E quando me recordei deste livro, lembrei-me das profundas discussões sobre o “colonialismo” da obra, por ser um preto, o Sexta-Feira (até o nome…) que trabalhava para o branco naufragado.
Pois bem: no livro do Verne há dois brancos que naufragam. Mas, de repente, caído do céu, lá aparece um preto para fazer o trabalho mais pesado!
Pois, até o francês , a escrever em 1882, quatro anos depois da abolição total (formal…) da escravatura no nosso país!

2 Comments:

Blogger tea & oatcakes said...

Não sei se foi o Marx quem terá certa vez dito que se compreende melhor o capitalismo lendo o Balzac do que os economistas. Mas fosse quem fosse, o dito aplica-se aqui.
Seria irrelevante o Sexta-Feira ser branco, preto, vermelho ou amarelo. O que é essencial é a relação de hierarquia. Se eu escrevesse um romance sobre a europa feudal no qual não houvesse senhores nem servos, não era por isso que a obra me redimia do mundo. A boa arte, a ciência e a filosofia, falam do mundo.

7:53 PM  
Blogger Armando Tavares said...

http://segurancaditasocial.blogspot.com/

4:56 PM  

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