Luta de classes nos lençóis
“O casamento conjugal não entra na história como a reconciliação do homem e da mulher e muito menos ainda como a forma suprema da casamento. Pelo contrário: surge como sujeição de um sexo pelo outro, como a proclamação de um conflito entre os dois sexos, desconhecido até então em toda a pré-história. Num velho manuscrito composto por Marx e por mim em 1846 [Ideologia Alemã] encontro estas linhas: “a divisão do trabalho não era primitivamente mais do que a divisão do trabalho no acto sexual”. Às quais posso agora acrescentar: A primeira oposição de classe que se manifesta na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher no casamento conjugal, e a primeira opressão de classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino. O casamento conjugal foi um grande progresso histórico, mas ao mesmo tempo abre, ao lado da escravatura e da propriedade privada, essa época que se prolonga até aos nossos dias, em que cada progresso é simultaneamente um relativo passo atrás, pois que o bem-estar e o desenvolvimento de uns são obtidos pelo sofrimento e o recalcamento de outros.”
Friedrich Engels, “”A origem da família, da propriedade privada e do Estado”
Friedrich Engels, “”A origem da família, da propriedade privada e do Estado”

1 Comments:
Há aqui coisas que cumpre apontar.
a) para os filósofos do séc XIX a ideia do progresso impunha-se ao entendimento da história com uma força inexorável. Os romances de Verne estão cheios disso: a volta ao mundo em 80 dias é a corrida da tecnologia moderna contra a tradição (os adversários de Fog que contra ele apostam no clube de cavalheiros). Não estou a dizer que o progresso não exista, mas não creio que haja qualquer coisa como um "progresso" a governar a história. Há composições de coisas, coisas que mudam. Eu diria que não se trata de "sempre o mesmo" nem do "radicalmente novo", diria antes que passamos a vida a fazer modificações de um mesmo essencial, um pouco como a evolução das espécies.
b) a dialéctica corre o perigo de nos lançar na substancializaçao da diferença. Porquê? Os filósofos do séc XIX agarram-se à dialéctica como um dispositivo para pensar o progresso na história, mas com isso incorrem num erro, essencializam a diferença. Com a dialéctica partimos da diferença para a necessidade da guerra e do conflito.
c) A contrapartida de tudo isto é a ideia de que a paz só pode residir na homogeneização. Ao fim e ao cabo continuamos cristãos: é preciso redimir a diferença, colmatar essa ruptura na carne... é preciso espírito.
Mas há outros modos de pensar a diferença.
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