Lugar Comum

Lugar comum onde se procura que se encontrem experiências, gostos, preocupações que, sendo comum de muitos, possam ser comuns de ainda mais. "Lugar comum" foi o título do último programa do autor numa rádio da rua Tenente Valadim, no Porto, no princípio dos anos 80.

Domingo, Setembro 03, 2006

Dos intelectuais

Nem na Cidade Antiga, nem em parte alguma, os intelectuais – porque é de intelectuais que se trata, mesmo se a palavra é moderna – podem constituir uma classe social. A razão é simples: eles não ocupam nenhuma posição independente na produção de bens materiais; além disso, são de origens sociais diversas, não possuem uma unidade de classe e exprimem interesses e atitudes ideológicas divergentes.
Aqui como noutros lugares, os intelectuais constituem uma classe social intermédia.
Mas aqui, no quadro da Cidade-Estado escravista, talvez mais do que em qualquer outra sociedade antagónica, os intelectuais são uma camada social improdutiva (no sentido material do termo, bem entendido); a sua actividade exerce-se, com poucas excepções, à margem da produção de bens materiais. No essencial, o corte entre a produção espiritual e a produção material é total. E, de mais, para numerosos intelectuais não se trata de maneira nenhuma do exercício de uma profissão, de uma actividade profissional remunerada. A atitude de desprezo, e mesmo de hostilidade no tocante ao trabalho remunerado, de qualquer trabalho inclusive intelectual, a troco de dinheiro, é aliás um ponto particularmente delicado do litígio ideológico em que as clivagens se fazem sentir.

Vasco Magalhães-Vilhena, “A lógica, a ciência e a técnica na antiguidade”

5 Comments:

Blogger Tacitus said...

"Os grandes intelectuais são cépticos" - Nietzsche , Friedrich. Boa semana...

2:50 PM  
Blogger rouxinol de Bernardim said...

O cepticismo (niilismo...) será fautor de derrotismo ou prelúdio de optimismo (para os explorados)?

3:31 PM  
Blogger tea & oatcakes said...

De acordo com esta abordagem, a produção teórica, e também a ideologia, não fazem parte da produção social, o que é falso.
O ascenso do fascismo na europa mostrou bem como a consciência social não é uma simples excrescência da existência social. Se a consciência decorresse mecanicamente da existência ou das condições de vida, o fascismo não teria sido possível, pois foi um movimento de massas. E continua a ser um movimento de massas.
Enquanto menosprezarmos a produção teórica e a excluirmos da produção social, não compreendemos o funcionamento da coisa.

De resto, todos os indivíduos ocupam uma posição transversal no espectro social. A consciência não é um mero decalque sociológico. Não há trabalhadores revolucionários vs trabalhadores reaccionarios tal como não há bons vs maus. Cada pessoa encerra em si preconceitos da mais variada origem. A consciencia das pessoas é sempre o resultado de uma hibridez, entre ideias que tendem para diversos lados. Não se tem consciencia revolucionario pelo facto de trabalhar na estiva, tal como não se é reaccionario por se nascer burguês (Marx era um).

8:14 PM  
Blogger tea & oatcakes said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

8:25 PM  
Blogger tea & oatcakes said...

Quando acuso esta linha de pensamento mais "sociológica" de colocar a produção teórica "de fora", obviamente tal não sigifica que se afirme não fazer parte do mundo. Trata-se antes de negar "força material" à teoria e à ideologia.
É particularmente grave hoje em dia, quando o nível de instrução e erudição dos operários cresceu imenso (uma licenciatura já não distingue em nada) e quando a produção é cada vez mais determinada pela informatização.

8:26 PM  

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