Dos intelectuais
Nem na Cidade Antiga, nem em parte alguma, os intelectuais – porque é de intelectuais que se trata, mesmo se a palavra é moderna – podem constituir uma classe social. A razão é simples: eles não ocupam nenhuma posição independente na produção de bens materiais; além disso, são de origens sociais diversas, não possuem uma unidade de classe e exprimem interesses e atitudes ideológicas divergentes.
Aqui como noutros lugares, os intelectuais constituem uma classe social intermédia.
Mas aqui, no quadro da Cidade-Estado escravista, talvez mais do que em qualquer outra sociedade antagónica, os intelectuais são uma camada social improdutiva (no sentido material do termo, bem entendido); a sua actividade exerce-se, com poucas excepções, à margem da produção de bens materiais. No essencial, o corte entre a produção espiritual e a produção material é total. E, de mais, para numerosos intelectuais não se trata de maneira nenhuma do exercício de uma profissão, de uma actividade profissional remunerada. A atitude de desprezo, e mesmo de hostilidade no tocante ao trabalho remunerado, de qualquer trabalho inclusive intelectual, a troco de dinheiro, é aliás um ponto particularmente delicado do litígio ideológico em que as clivagens se fazem sentir.
Vasco Magalhães-Vilhena, “A lógica, a ciência e a técnica na antiguidade”
Aqui como noutros lugares, os intelectuais constituem uma classe social intermédia.
Mas aqui, no quadro da Cidade-Estado escravista, talvez mais do que em qualquer outra sociedade antagónica, os intelectuais são uma camada social improdutiva (no sentido material do termo, bem entendido); a sua actividade exerce-se, com poucas excepções, à margem da produção de bens materiais. No essencial, o corte entre a produção espiritual e a produção material é total. E, de mais, para numerosos intelectuais não se trata de maneira nenhuma do exercício de uma profissão, de uma actividade profissional remunerada. A atitude de desprezo, e mesmo de hostilidade no tocante ao trabalho remunerado, de qualquer trabalho inclusive intelectual, a troco de dinheiro, é aliás um ponto particularmente delicado do litígio ideológico em que as clivagens se fazem sentir.
Vasco Magalhães-Vilhena, “A lógica, a ciência e a técnica na antiguidade”

5 Comments:
"Os grandes intelectuais são cépticos" - Nietzsche , Friedrich. Boa semana...
O cepticismo (niilismo...) será fautor de derrotismo ou prelúdio de optimismo (para os explorados)?
De acordo com esta abordagem, a produção teórica, e também a ideologia, não fazem parte da produção social, o que é falso.
O ascenso do fascismo na europa mostrou bem como a consciência social não é uma simples excrescência da existência social. Se a consciência decorresse mecanicamente da existência ou das condições de vida, o fascismo não teria sido possível, pois foi um movimento de massas. E continua a ser um movimento de massas.
Enquanto menosprezarmos a produção teórica e a excluirmos da produção social, não compreendemos o funcionamento da coisa.
De resto, todos os indivíduos ocupam uma posição transversal no espectro social. A consciência não é um mero decalque sociológico. Não há trabalhadores revolucionários vs trabalhadores reaccionarios tal como não há bons vs maus. Cada pessoa encerra em si preconceitos da mais variada origem. A consciencia das pessoas é sempre o resultado de uma hibridez, entre ideias que tendem para diversos lados. Não se tem consciencia revolucionario pelo facto de trabalhar na estiva, tal como não se é reaccionario por se nascer burguês (Marx era um).
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Quando acuso esta linha de pensamento mais "sociológica" de colocar a produção teórica "de fora", obviamente tal não sigifica que se afirme não fazer parte do mundo. Trata-se antes de negar "força material" à teoria e à ideologia.
É particularmente grave hoje em dia, quando o nível de instrução e erudição dos operários cresceu imenso (uma licenciatura já não distingue em nada) e quando a produção é cada vez mais determinada pela informatização.
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